Tento esquecer-te e te amo mais, cada vez que peço pra não lembrar sinto tuas mãos a tocar meu corpo, lembro dos teus olhos a me falar loucuras, da tua insegurança em assumir o mesmo. Lembro dos beijos, dos abraços, dos desejos, das mãos dadas em pleno passeio pelo centro. Lembro-me do teu colo, do teu cheiro, das tuas manias.
Lembro-me das danças até o raiar do dia, da bebida inebriando meus sentidos e me fazendo sentir você por inteiro. Lembro das despedidas e dos retornos, das confusões e desconfortos, das alegrias e tristezas, de um olá e um telefonema.
Lembro daquelas musicas que trocávamos como tema, da inveja dos outros pelo nosso lema. Lembro do tempo que era cruel, que passava ligeiro pra me tirar de você. Lembro de tudo e todos que vivemos, dos que torceram e distorceram por esse amor. Lembro das esperas, do relógio tão lento, do teu jeito, por vezes sereno por vezes arredio. Por vezes todo meu. Lembro de você dizendo fica, quando eu queria partir. Lembro de dizer eu fico, não saio mais de perto de ti. Lembro das lágrimas que caíram, das que não caíram e das que escondemos por medo e vergonha de se entregar. Lembro da nossa cama, que não era nossa quando teu corpo acorrentava o meu, que era da noite que se tornava eterna quando a gente se amava, ali, lentos, ferozes, avassaladores, amantes apenas. Lembro de te ver vestir a roupa e dizer te amo, até logo, volto logo, fica bem, te adoro. Lembro das tuas mentiras, de tê-las perdoado tantas vezes. Lembro das tuas verdades e de ter vivido mais um dia por acreditar nelas. Lembro de cada detalhe do teu corpo, cada detalhe do teu toque, o jeito como beija, como abraça, como acalma, como irrita, como me envergonha, como me conquista, como me faz sua cada vez que me toca com esse seu olhar. Lembro do teu jeito de andar, de se banhar, de se vestir, de se calçar, de dormir, de agradecer, de brigar, lembro de você, assim como você é. Lembro e de tanto lembrar não consigo apagar você de mim, ficastes em mim como febre que não passa. Ficastes a circular pelo meu sangue a viciar-me por teus defeitos e tuas qualidades. Lembro, lembro de ouvir-te dizer que eu era tua amplidão, tua esperança contida, tua razão desmedida, tua companhia mais agradável, tua sensação mais límpida, tua nobreza mais infinda, mas, não lembro de ter deixado a receita pra eu esquecer de um sentimento tão sublime. Lembro-me de dizer que eras minha vida, minha ilusão mais restrita, meu levitar de colibris, meu mundo, meu tudo, meu ar e que sendo meu ar, o dia que partistes, eu deixaria de viver, pois nada mais teria que me fizesse acordar a não ser a certeza que te teria ao entardecer do dia. E, lembro que dissestes que jamais eu te perderia que seriamos sempre um do outro, um pro outro e para os futuros, pequeninos que viriam. Que seriamos dois, um porto seguro do outro e que quando estivéssemos cansados, deitaríamos de mãos dadas e esperaríamos a velhice se cumprir. Acho, ligeira e triste desconfiança, que esquecestes o que disse, porque te vi acenar ao longe, mas não pra mim, pra outro alguém que passou. Te vi caminhar a noite, mas por outra estrada que não aquela que te trazia pra mim. Eu, ainda estou a sua espera, tento todos os dias me convencer de que não era amor, de que tudo acabou, mas essas lembranças não querem seguir viajem, batem a minha porta todos os dias, eu não abro, mas vem a noite eu tomo um cálice daquele vinho e sinto o gosto da tua boca, escuto tua voz a sussurrar no meu ouvido, teus passos se aproximando da porta, que ainda está aberta, teu cheiro que vai lastrando sobre meu corpo, então, embriagada eu durmo e quando acordo percebo a casa desarrumada, procuro por todos os lados, quarto, sala, banheiro, cozinha, varanda, você não está. Essa noite adormeceu em outra cama que não aquela que se tornava morta pra nossos corpos desfalecerem depois do prazer. Então eu choro, choro recordando a foto que você deixou quando partiu, choro a recordar nossa vida, a eternidade do que sentíamos quando estávamos juntos e choro por saber que ainda te amo e que as lembranças não me abandonam mesmo eu pedindo, implorando para partirem. Choro, porque o céu perdeu o brilho, minha vida agora é o gris, eu vivo a escrever poemas, a cantar aquelas canções de amor, a controlar meu coração dilacerado, a recolher os cacos que você deixou, a contentar-me com encontros casuais, a contentar-me em te observar de longe, a te namorar pela manhã quando toma o ônibus, a te ver voltar ao cair da tarde e se preparar para um encontro com amigos, a viver a vida simplesmente, como se minha ausência fosse algo banal que esquecestes no primeiro minuto em que não mais me teve. Descubro que saudade não se traduz quando esse frio me toma inteira e penso que poderia ser diferente, que poderíamos ser como combinamos, um do outro e para o outro. Penso que perdi o jeito, o tom, a cor e que eu sem você sou como o sol sem o amanhecer do dia. Só, triste, calado, cinza.
Viviane Serrano

Aiiiiiii ate eu xorei aki serinhooOo isso e toka o coração bem la no fundOoO nossa to xorandOO caramba d+ 100 palavras fikei !!!! so teu fã podes cre s2 s2
ResponderExcluirValeu Paulinho!!s2
ResponderExcluirVivi,
ResponderExcluirNao resisti.Me lembrei do Joao Cabral e resolvi postar.
Para mim,esse e o poema mais lindo e completo (embora tenha postado fragmentos. O poema e a fala de tres personagens)do Joao Cabral.
Nao bsei se voce ja conhecia.Talvez seus frequentadores nao o conhecam.
Ai vai.
Luzia.
Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.